domingo, 29 de abril de 2012

Linguagem e afasia



A Teoria dos Atos de Fala surgiu no interior da Filosofia da Linguagem, no início dos anos sessenta, tendo sido, posteriormente, apropriada pela Pragmática. Filósofos da Escola Analítica de Oxford, tendo como pioneiro o inglês John Langshaw Austin (1911-1960), seguido por John Searle e outros, entendiam a linguagem como uma forma de ação ("todo dizer é um fazer"). Passaram, então, a refletir sobre os diversos tipos de ações humanas que se realizam através da linguagem: os "atos de fala", (em inglês, "Speech acts").

A Teoria dos Atos de Fala tem por base doze conferências proferidas por Austin na Universidade de Harvard, EUA, em 1955, e publicadas postumamente, em 1962, no livro How to do Things with words. 0 título da obra resume claramente a idéia principal defendida por Austin: dizer é transmitir informações, mas é também (e sobretudo) uma forma de agir sobre o interlocutor e sobre o mundo circundante.



Até então, os linguistas e os filósofos, de modo geral, pensavam que as afirmações serviam apenas para descrever um estado de coisas, e, portanto, eram verdadeiras ou falsas. Austin põe em xeque essa visão descritiva da língua, mostrando que certas afirmações não servem para descrever nada, mas sim para realizar ações.


Inicialmente, Austin (1962) distinguiu dois tipos de enunciados: os constativos e os performativos:



• enunciados constativos são aqueles que descrevem ou relatam um estado de coisas, e que, por isso, se submetem ao critério de verificabilidade, isto é, podem ser rotulados de verdadeiros ou falsos. Na prática, são os enunciados comumente denominados de afirmações, descrições ou relatos, como Eu jogo futebol ; A Terra gira em torno do sol; A mosca caiu na sopa, etc.;



• enunciados performativos são enunciados que não descrevem, não relatam, nem constatam absolutamente nada, e, portanto, não se submetem ao critério de verificabilidade (não são falsos nem verdadeiros). Mais precisamente, são enunciados que, quando proferidos na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, na forma afirmativa e na voz ativa, realizam uma ação (daí o termo performativo: o verbo inglês to perform significa realizar). Eis alguns exemplos: Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; Eu te condeno a dez meses de trabalho comunitário; Declaro aberta a sessão; Ordeno que você saia; Eu te perdôo. Tais enunciados, no exato momento em que são proferidos, realizam a ação denotada pelo verbo; não servem para descrever nada, mas sim para executar atos (ato de batizar, condenar, perdoar, abrir uma sessão, etc.). Nesse sentido, dizer algo é fazer algo. Com efeito, dizer, por exemplo, Declaro aberta a sessão não é informar sobre a abertura da sessão, é abrir a sessão. São os enunciados performativos que constituem o maior foco de interesse de Austin.



É preciso observar, no entanto, que o simples fato de proferir um enunciado performativo não garante a sua realização. Para que um enunciado performativo seja bem-sucedido, ou seja, para que a ação por ele designada seja de fato realizada, é preciso, ainda, que as circunstâncias sejam adequadas. Um enunciado performativo pronunciado em circunstâncias inadequadas não é falso, mas sim nulo, sem efeito: ele simplesmente fracassa. Assim, por exemplo, se um faxineiro (e não o presidente da câmara) diz Declaro aberta a sessão, o performativo não se realiza (isto é, a sessão não se abre), porque o faxineiro não tem poder ou autoridade para abrir a sessão. 0 enunciado é, portanto, nulo, sem efeito (ou, nas palavras de Austin, "infeliz").



Cada ato de fala é sempre um ato de opção sobre um feixe de possibilidades de expressão que o sujeito correlaciona às condições variáveis da produção do discurso.



A maneira como o processo de significação se constitui não é predeterminada nem segue uma regra fixa, mas é negociada durante a interlocução.

A interlocução decorre de atos de linguagem:

  • intenções do locutor 
  • expectativa do ouvinte 
  • compreensão de ambos 
  • identificação dos objetos etc. 



Enunciar é dizer qualquer coisa mas quando dizemos não pronunciamos somente alguns sons articulados, combinamos as palavras e unidades mais complexas em uma construção, segundo as leis da gramática e fazemo-lo empregando a expressão em um sentido determinado e para uma referência determinada.



Apontamentos:





A significação plena é tudo o que, a partir do signo, pode ser socialmente pensado, dito e feito. 






O signo é aquilo que representa algo a alguém. 













A linguagem é tomada como uma ação sobre e entre interlocutores, mediada pela língua, gestualidade e percepção. 




Os aspectos linguísticos da significação se referem à morfologia, sintaxe, semântica, fonologia e pragmática. 





A escrita, quando se apresenta de forma alfabética, é um meio linguístico de produzir significação. Ela se realiza culturalmente e por mediação.









Os níveis linguísticos, orais e gráficos, bem como os gestos e expressões faciais, são os meios pelos quais a linguagem se estabelece como criadora e garante a significação. 





Afasia:



Afasia – do grego aphasia – significa falta de fala, inabilidade de dizer alguma coisa sobre algo.



São alterações de processos linguísticos de significação de origem articulatória e discursiva, produzidas por lesão focal adquirida no Sistema Nervoso Central (SNC), em zonas responsáveis pela linguagem, podendo ou não se associar a alterações de outros processos cognitivos.



A afasia pode afetar o sistema da língua, bem como a relação desse sistema com os parâmetros culturais partilhados por uma dada comunidade de falantes.


Em 1861, Broca relacionou lesões na parte posterior da 1ª circunvolução central com perda na habilidade do uso das palavras. Esta área, chamada de área de Broca (vide post "Áreas de Wernicke e Broca"), relaciona-se com a fonação e está ligada com áreas motoras. É considerada um centro para as imagens motoras da fala.

Em 1864, Wernicke relacionou a área entre os giros de Helsche (parte posterior da circunvolução superior temporal esquerda) com uma perda severa na compreensão da linguagem. Esta área, chamada de área de Wernicke, é considerada um centro para o conceito sensorial das palavras. A afasia sensorial é um dos distúrbios decorrentes da lesão desta área.

O processamento neural da linguagem envolve uma interrelação entre área de Broca e Wernicke, áreas corticais sensoriais e de associação.

Para a realização de uma avaliação discursiva é necessário criar um ambiente favorável para que se exerçam as funções da linguagem e os papéis do sujeito. O objetivo principal é identificar os processos de significação, verbais e não verbais, que o sujeito produz e interpreta, ao invés de quantificar o déficit, a falha, o erro. Considera-se a competência pragmática do sujeito afásico em produzir e interpretar sentidos, cuja estruturação em enunciados pode ou não corresponder àqueles possíveis em sua língua.

Não se aceita, na abordagem discursiva, a atitude gramático-normativa sobre enunciados de sujeitos afásicos, considerando-os sempre como da ordem do patológico.

A Universidade Estadual de Campinas tem um Centro de Afásicos, que funciona ativamente e realiza diversas pesquisas e projetos.

O Centro de Convivência de Afásicos (CCA), localizado no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, pode ser definido como um espaço de interação entre pessoas afásicas e não-afásicas cujo objetivo é desenvolver estudos linguísticos e neurolinguísticos, bem como garantir às pessoas afásicas efeitos terapêuticos e subjetivos possibilitados por variadas experiências interacionais e formas de inserção em uma comunidade de práticas sociais cotidianas.





A classificação das afasias do ponto de vista da linguística:


Jakobson foi o 1º linguísta a fazer uma descrição dos sintomas afásicos e definia a afasia com a incapacidade de fazer proposições.


Para ele, o estudo da linguagem patológica auxilia o entendimento sobre a teoria linguística.


Partia do pressuposto de que na linguagem havia leis universais no que diz respeito à sincronia, à diacronia, à aquisição da linguagem e à sua dissolução, no caso dos afásicos.


Ao descrever linguisticamente as afasias propostas por Luria, sua intenção era construir uma teoria geral da linguagem.


Postulou um duplo código da linguagem: o fonêmico e o semântico, baseado na concepção estruturalista.


Tal duplicidade permite ao indivíduo passar da etapa da formulação interna para a expressão verbal.


A destruição de um desses códigos levou Jakobson a pensar nos 2 eixos que regem o comportamento verbal: o paradigmático e o sintagmático.


Ele apresentou 3 dicotomias subjacentes ao comportamento verbal:

  1. codificação / decodificação 
  2. limitação / desintegração 
  3. sequência / co-presença 

Codificação ou combinação: se dá por uma relação externa de contiguidade.



Decodificação ou seleção: se dá por uma relação interna de similaridade.




Quando a contiguidade estiver prejudicada e a similaridade intacta, perde-se a faculdade de formar proposições, provocando uma desintegração no contexto (agramatismo/alteração metonímica).

Quando a similaridade astiver prejudicada e a contiguidade intacta, altera-se o código, ocasionando uma alteração metafófica.

A 2ª dicotomia ajuda a mostrar o grau de comprometimento que cada lesão provoca.



A afasia dinâmica e a afasia semântica caracterizam-se por traços de limitação.

Afasia semântica: perda do entendimento de uma relação lógico-gramatical.

Afasia dinâmica: dificuldade em passar de uma frase para outra. A sua produção limita-se a frases isoladas.

As afasias eferente e sensorial caracterizam-se por traços de desintegração.

Afasia sensorial: incapacidade de dar significado às palavras que compõem o léxico da língua.

Afasia eferente: problema na estruturação fonológica das palavras que compõem o código. Apresenta parafasias fonêmicas.

A 3ª dicotomia aplica-se ás atividades integrativas dos elementos sucessivos ou simultâneos (eixos sintagmático ou paradigmático).

Jakobson classifica as afasias eferente, aferente e dinâmica como problemas de codificação, ou seja, relativo à contiguidade.

As afasias semântica, sensorial e amnésica apresentam dificuldades relativas à decodificação, ou seja, em selecionar ou sintetizar elementos linguísticos já analisados.

Para avaliar e compreender processos de significação, patológicos ou não, que
ocorrem na linguagem do sujeito afásico, utiliza-se o que se convencionou chamar de uma teoria de linguagem enunciativo-discursiva.

Enunciativo, porque importa a enunciação para o outro, em meio a contingências próprias de uso social da linguagem; discursivo, porque é a forma de a linguagem se expor como atividade significativa, estruturada por fatores ântropo-culturais dissimulados ou aparentes.

A avaliação de linguagem que deriva dessa perspectiva relaciona-se aos processos de descoberta e conhecimento das dificuldades que o sujeito apresenta, bem como aos processos alternativos de significação de que lança mão para com elas lidar.



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Insanamente louca por tudo que envolve a relação linguagem-cérebro-mente.... Apaixonada esposa de Rafael, estudante do último ano de Medicina e futuro Médico da Família.. Residente em Cuiabá-MT, desde 2007, onde conclui minha graduação em Letras/Inglês, na UFMT, em 2011.. Orgulhosa filha de Marineide Dan Ribeiro, mais conhecida como Márcia ou Grega.. Futura mestranda da UNICAMP/Campinas-SP...

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